O comportamento do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), tem recebido atenção diante do atual cenário de tensão política e da exposição intensa do Judiciário. O episódio mais recente, o gesto do dedo médio feito por Moraes durante o jogo entre Corinthians e Palmeiras na NeoQuímica Arena, ainda levanta dúvidas sobre seu destinatário. O caso ocorreu pouco depois de o ministro ter sido alvo da Lei Magnitsky, uma sanção dos Estados Unidos que busca punir supostos abusos contra apoiadores de Jair Bolsonaro (PL).
Moraes, que lidera processos envolvendo o ex-presidente, entre eles o julgamento sobre a suposta tentativa de golpe programado para setembro, também determinou prisão domiciliar de Bolsonaro por descumprimento de medidas judiciais. Além disso, como parte das sanções impostas, Moraes teve um cartão de crédito de bandeira norte-americana bloqueado no Brasil.
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A personalização do Judiciário e as pressões sobre Moraes
Especialistas apontam que a postura de Moraes reflete a personalização do Judiciário, fenômeno em que figuras ganham mais notoriedade do que as próprias instituições. O psicanalista Christian Dunker, da Universidade de São Paulo (USP), afirmou ao jornal Folha de S.Paulo, que tais reações podem ser compreendidas diante da pressão enfrentada pelo ministro.
“Moraes deveria mesmo estar afetado com tudo o que está acontecendo, porque tudo isso deve ser muito exaustivo e qualquer um se sentiria nervoso”, afirmou Dunker. “Se ele fosse mais autocontrolado, aí sim seria um problema. Eu não vejo nenhuma guinada patológica. Moraes é um sujeito comum, feito de carne e osso, não de aço.”
O magistrado afirmou à The New Yorker que pratica muay thai para aliviar o estresse, hábito visto como positivo por profissionais de saúde mental. Segundo Dunker, atividades físicas podem ajudar quem sofre pressões intensas e não pode expressar emoções livremente no dia a dia.
O estilo enérgico de Moraes não se resume a gestos públicos. Seus despachos costumam apresentar frases em letras maiúsculas e pontos de exclamação, como ao determinar a prisão de Bolsonaro, quando afirmou: “A JUSTIÇA É CEGA, MAS NÃO É TOLA”. Tal conduta já rendeu críticas entre juristas e políticos por sua postura considerada intransigente.
Em audiências recentes, Moraes protagonizou desentendimentos. Na acareação entre Mauro Cid e o coronel Marcelo Câmara, o ministro pediu que um segurança verificasse se o advogado Marcus Vinícius de Camargo Figueiredo gravava a sessão, algo proibido. O embate começou depois de Moraes rejeitar uma questão de ordem apresentada pelo advogado, que afirmou respeitar o Judiciário. O ministro respondeu exigindo respeito igualmente.
Três meses atrás, Moraes ameaçou prender por desacato o ex-ministro Aldo Rebelo, que prestava depoimento, depois de Rebelo sugerir que as falas dos envolvidos fossem analisadas além do sentido literal. Também repreendeu o advogado Eumar Novacki, defensor de Anderson Torres, ao impedir que a audiência se tornasse um “circo”, depois que Novacki repetiu perguntas ao general Freire Gomes.
Personalismo, politização e repercussão pública
Para o cientista político Henrique Curi, da FESPSP, a notoriedade de Moraes evidencia o personalismo no Judiciário, onde algumas figuras concentram poder simbólico e político. “Moraes transita entre um guardião constitucional e um ator político de alta voltagem”, explicou Curi. O excesso de decisões individuais, a presença constante na mídia e a falta de harmonia interna no STF contribuem para essa imagem.
Mesmo diante da pressão, o ministro determinou na quarta-feira 20, a aplicação de medidas cautelares ao pastor Silas Malafaia, entendendo que ele atuou junto a Bolsonaro e ao deputado Eduardo Bolsonaro (PL) para prejudicar o andamento da ação penal sobre a tentativa de “golpe”.
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Fonte: Revista Oeste
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