Em julho de 1968, Nélson Rodrigues publicou nas páginas de O Globo uma crônica divertidíssima intitulada A leitora de Marcuse. Naquela época, em pleno regime militar no Brasil, o radicalismo de esquerda era muito chique, invariavelmente adotado nos salões e nas festas privadas da elite nacional. Nas palavras do grande cronista do período:
“Os simples, os românticos, os que não têm uma certa malícia não imaginam o que é, e como é, o grã-finismo. Dois dias depois, repasso as colunas sociais e lá está: – Fulana de Tal lê Marcuse; Beltrana de Tal lê Marcuse; Sicrana de Tal lê Marcuse. E, de repente, todas as grã-finas, vivas, mortas ou analfabetas, estão lendo Marcuse. A coisa é tão contagiosa como o foi, outrora, a escarlatina. A grã-fina que ‘lê Marcuse’, e o confessa por toda a parte, está dando um atestado de ideologia. E, realmente, a conhecida do Machado e minha é esquerdista e radical como as que mais o sejam. Quer violência, não abre mão de sangue”.
O tempo parece não ter passado. Hoje, o esquerdismo continua chique. E, ademais, conveniente. Nossos grã-finos talvez já não leiam Marcuse. Não sei se ainda leem ou o que leem. Jones Manoel? Elias Jabbour? Jessé de Souza? Zizek? Chomsky? Thomas Piketty? Não importa. O fato é que continuam grã-finos. E mais radicais do que nunca.
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Experimentem, por exemplo, vasculhar a timeline do grã-fino Gilmar Mendes, que dá a impressão de estar relendo Frantz Fanon. Excelso representante da nossa noblesse de robe — cuja pertença ele ostenta pelo hábito de usar um relógio caro em cada pulso —, seus tuítes parecem grafites nas paredes de um DCE de faculdade de humanas, nos quais abundam expressões como “combate ao racismo, à gordofobia e a todas as formas de preconceito”, “resistência democrática”, “soberania”, “justiça social”, “norte global e sul global” etc. Gilmar também quer violência. E não abre mão do sangue derramado de “extremistas”, “bolsonaristas”, “fascistas” e outros inimigos de seu projeto de mundo melhor.
Sua mais recente bandeira é a defesa do que chama de “soberania digital” — termo que ele parece ter importado de Alex Soros. De fato, o magistrado de palanque começou a usar a expressão no exato momento em que o filho do filantropo globalista George Soros, herdeiro e atual comandante da Open Society Foundations, veio de visita ao Brasil para realizar uma interferência estadunidense do bem e violar nossa soberania nacional em favor da nossa soberania digital — ou seja, a soberania para a esquerda radical falar livremente na internet, sem contraponto, sem dissenso e, sobretudo, sem a presença incômoda da direita “nacional-populista”.
Sim, Gilmar anda tão radical, tão politicamente maduro, e tão admirador do regime chinês, que, munido de uma pesquisa do GETIP (Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública da USP), decidiu partir para cima do imperialismo digital estadunidense. “A internet é nossa! Yankees, go home!” — parece em vias de gritar o nosso Ho Chi Minh mato-grossense, o nosso Frantz Fanon de toga, o nosso Régis Debray de gabinete, causando frêmito nos decotes do jornalismo “profissional”.
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Em sua crônica, Nélson Rodrigues conta que a grã-fina leitora de Marcuse só numa ocasião fez uma pequena concessão à sua própria classe. Foi quando, na célebre Passeata dos Cem Mil, à altura da Candelária, Vladimir Palmeira ordenou que a multidão se sentasse no chão para ouvir seu discurso. “Ela desobedeceu para não sujar o vestido” — escreve Nélson.
Creio que Gilmar, o leitor de Frantz Fanon, faria uma única concessão à sua própria casta, rebelando-se apenas no caso de a luta anticolonial contemporânea lhe exigir abrir mão das lagostas. “Hay que endurecerse pero sin perder el apetito jamás” — diria, com o semblante grave e o olhar no futuro.
Fonte: Revista Oeste
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