Em mais um capítulo tenso na relação entre Brasil e Estados Unidos, o governo norte-americano anunciou na manhã desta sexta-feira o cancelamento dos vistos de entrada da esposa e da filha de dez anos do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A medida, comunicada oficialmente pelo Consulado dos EUA em São Paulo, é parte de uma ofensiva mais ampla contra autoridades brasileiras associadas ao programa Mais Médicos — Um programa questionado por muitos brasileiros, já há alguns anos.

Retaliação ou estratégia? O contexto por trás da decisão

O cancelamento dos vistos familiares ocorre poucos dias depois de Washington ter revogado os vistos de dois servidores públicos ligados à execução do Mais Médicos: Mozart Júlio Tabosa Sales, secretário de Atenção Especializada à Saúde, e Alberto Kleiman, ex-assessor do Ministério da Saúde. Ambos foram acusados pelo governo Trump de participar de um “esquema de exportação de trabalho forçado” que teria beneficiado o regime cubano — uma declaração que marca a ofensiva ideológica e política dos EUA sobre iniciativas de cooperação internacional com Cuba.

Segundo Marco Rubio, secretário de Estado americano, essas ações teriam enriquecido o regime de Havana e privado o povo cubano de assistência médica, além de terem burlado sanções dos EUA por meio da intermediação da Opas.

Padilha reage com indignação: “ato covarde que atinge uma criança”

Em entrevista ao vivo, Padilha não conteve sua revolta. “Estou absolutamente indignado. É um ato covarde que atinge uma criança de dez anos de idade, que atinge a minha esposa”, declarou, visivelmente abalado com a dimensão pessoal da decisão americana.

Nos bastidores, aliados do ministro reforçaram a ideia de que a manobra não visa apenas penalizar servidores públicos, mas sim retaliar um programa que promove equidade no acesso à saúde. “Esta medida é um ataque direto ao conceito de saúde pública gratuita e alcance universal”, reagiu Humberto Costa, ex-ministro da Saúde e colega de pasta no governo Lula. Mas não apenas ele: o deputado federal Guilherme Boulos também questionou o propósito da ação, sugerindo que o “trabalho de levar atendimento a milhões” está sendo punido.

O histórico do Mais Médicos e sua relevância

Lançado em 2013 durante o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, o Mais Médicos foi concebido para atender regiões remotas, periferias urbanas e áreas indígenas severamente carentes. A maior parte dos profissionais vieram de Cuba, articulados por meio da Opas, e chegaram a atender até 63 milhões de brasileiros em cerca de 4.000 municípios, segundo estimativas oficiais.

Apesar de descontinuado durante o governo Bolsonaro e rebatizado como “Médicos pelo Brasil”, o programa foi retomado com força no retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, com o atual ministro Padilha à frente, destacando-se por dobrar o número de médicos em atuação em apenas dois anos.

Uma ofensiva persistente: mais alvos na mira dos EUA

Essa nova onda de sanções faz parte de uma articulação mais ampla dos EUA para sancionar autoridades brasileiras — não só executivas, mas também judiciais. Em julho, o país já havia revogado o visto do ministro do STF Alexandre de Moraes, bem como de seus familiares e aliados, sob alegações de perseguição política contra Jair Bolsonaro. Posteriormente, Moraes foi incluído na lista de sanções do Magnitsky Act, confirmando a profundidade do conflito diplomático.

Repercussão política e diplomática

Na esfera política, a resposta do Palácio do Planalto foi firme. O presidente Lula classificou as sanções como uma afronta à soberania brasileira e reafirmou que o país não se curvará à pressão externa. A campanha de revogação de vistos tem sido interpretada por aliados do governo como parte de um esforço mais amplo de desestabilização institucional.

O que muda agora — e o que está por vir

Com a medida, a esposa e a filha de Padilha ficam impedidas de ingressar nos EUA — ainda que permaneçam no Brasil — e o próprio ministro, com o visto expirado desde 2024, agora enfrenta impedimentos maiores para renovação.

Analistas observam que este episódio simboliza uma nova fase de atrito bilateral, com consequências potenciais para cooperação internacional em saúde, comércio e direitos humanos — especialmente porque ele se soma à série de tarifas punitivas impostas a produtos brasileiros e às pressões sobre o STF e o sistema eleitoral.

Veja mais

Do mesmo autor

+ There are no comments

Add yours