
O cenário artístico brasileiro amanheceu de luto nesta terça-feira. Morreu, aos 60 anos, o cantor Netinho, um dos maiores ícones da história do axé music e dono de uma trajetória brilhante que ajudou a moldar a identidade cultural e festiva do Brasil. O artista faleceu em um hospital de Salvador, na Bahia, após enfrentar bravamente um linfoma não Hodgkin do tipo B por mais de um ano, quadro que infelizmente evoluiu para complicações de falência renal e disfunção múltipla de órgãos.
A notícia de sua partida gerou uma onda imediata de comoção nas redes sociais, unindo fãs, anônimos, músicos e grandes nomes da MPB e do axé que lamentaram profundamente a perda. Netinho não foi apenas um intérprete de sucesso; ele foi o arquiteto de uma sonoridade vibrante que transbordou os limites geográficos da Bahia, conquistando trios elétricos, carnavais inesquecíveis, arenas e corações em todo o território nacional e no exterior.
Da Bahia para o Brasil: O início de um fenômeno
Nascido em Santo Antônio de Jesus, no coração do Recôncavo baiano, em 12 de julho de 1966, Ernesto de Souza Andrade Júnior, o Netinho, carregava desde cedo a paixão pela arte e pela música. Aos dez anos, mudou-se com a família para Salvador, e aos quatorze ganhou de sua mãe o seu primeiro violão, ferramenta mágica que daria início a uma jornada extraordinária. Na adolescência, conciliou os estudos com apresentações em bares da capital baiana, burilando seu talento e entendendo de perto a energia contagiante do público.
A grande virada de sua carreira profissional aconteceu em 1988, quando assumiu o posto de vocalista da Banda Beijo, estreando em grande estilo no Carnaval de Salvador. O impacto foi instantâneo e avassalador. No mesmo ano, o grupo estourou nacionalmente com a icônica música “Beijo na Boca”. O hit virou um verdadeiro hino de rebeldia alegre, contagiando a juventude da época e projetando o nome de Netinho para todo o país. A canção abriu portas e pavimentou o caminho para que o artista se tornasse uma das maiores potências fonográficas dos anos 1990.
A consagração solo e o fenômeno global chamado “Mila”
Após anos de glória à frente da Banda Beijo, Netinho deu início à sua carreira solo em 1993, buscando novos horizontes musicais e criativos. Foi em 1996, com o lançamento da inesquecível canção “Mila”, que o artista alcançou o ápice absoluto de sua popularidade.
“Mila” transformou-se em um marco histórico da música popular brasileira. A letra romântica e festiva embalou casais, festas, verões e carnavais por anos a fio, quebrando barreiras culturais e alcançando sucesso internacional. O carisma e a potência vocal de Netinho levaram a sua arte para palcos estrangeiros, realizando turnês memoráveis em países da Europa, como a Itália, e da América do Sul, como o Chile.
Além de “Mila” e “Beijo na Boca”, o repertório do cantor é recheado de clássicos absolutos que continuam vivos na memória coletiva do povo brasileiro. Canções como “Estrela Primeira”, “Barracos” e “A Vida é Festa” ajudaram a consolidar a era de ouro do axé music, mostrando a versatilidade de um artista que sabia unir a folia e a emoção com maestria.
O empresário visionário e a paixão pelo estúdio
O talento de Netinho nunca se limitou apenas à performance de palco. Visionário e apaixonado pelos bastidores da indústria fonográfica, o cantor também se destacou como empresário no mercado musical. Ele fundou um dos maiores e mais estruturados estúdios de gravação e mixagem do Rio de Janeiro, um espaço de excelência técnica que recebeu gigantes da música mundial e nacional, como Maria Bethânia, Milton Nascimento, Gilberto Gil, a italiana Laura Pausini e o astro internacional Lenny Kravitz.
Além disso, Netinho criou um selo musical próprio com o nobre objetivo de dar visibilidade e lançar novos talentos baianos, mostrando um compromisso genuíno com a renovação e a preservação da cultura de sua terra natal.
Batalhas pela vida e superações
A trajetória de Netinho também foi marcada por enormes provas de resiliência e amor à vida. Em 2013, o cantor enfrentou um grave problema de saúde ao sofrer três acidentes vasculares cerebrais (AVCs), complicações que exigiram longos períodos de reabilitação e o afastaram dos trios elétricos por quatro anos. Mesmo diante das adversidades físicas e dos impactos em sua voz, Netinho demonstrou uma força impressionante, retornando aos palcos com garra e recebendo sempre o carinho incondicional do público.

No início de 2025, o artista recebeu o diagnóstico de um câncer do sistema linfático. Durante o tratamento rigoroso, Netinho fez questão de manter uma postura transparente e serena, compartilhando mensagens de esperança com seus fãs e demonstrando uma profunda gratidão por sua caminhada terrestre.
Legado eterno de alegria
Em sua nota oficial de despedida, a assessoria divulgou palavras emocionantes deixadas pelo próprio artista, que refletiam sua filosofia de vida e sua entrega incondicional à arte: “Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei. Levarei comigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a minha arte.”
Por expresso desejo de Netinho, o velório e a cremação serão realizados de forma estritamente reservada, em uma cerimônia íntima voltada apenas para familiares e amigos próximos, que poderão prestar suas últimas homenagens de forma acolhedora e recolhida.
Netinho parte, deixando uma lacuna irreparável no coração da Bahia e do Brasil, mas a sua voz calorosa, o seu sorriso marcante e o ritmo contagiante de suas músicas permanecerão acesos para sempre. O axé music chora a perda de um de seus reis, mas a cultura brasileira celebra, com eterna gratidão, a passagem de um artista que transformou a alegria em sua verdadeira missão de vida. Descanse em paz, Netinho.

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