Em entrevista explosiva ao jornal norte-americano The Washington Post, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, deixou claro que não será intimidado por sanções internacionais e reafirmou seu compromisso inabalável com o devido processo legal. “Não recuaremos do que precisa ser feito”, declarou.

Na manhã desta segunda-feira, Moraes concedeu entrevista histórica ao The Washington Post, em que se destacou como um magistrado determinado a defender a democracia brasileira, mesmo diante de pressões externas. Chamado de “o juiz que se recusa a ceder à vontade de Trump” pela publicação, o ministro afirmou com convicção: “Não há a menor possibilidade de recuar um milímetro sequer”.

O contexto dessa fala é tenso: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou ações duras contra o Brasil, impondo uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros — o chamado “tarifaço” — e revogando o visto de Alexandre de Moraes. Além disso, o Departamento do Tesouro dos EUA aplicou sobre o ministro a Lei Magnitsky, que congelou seus bens e contas e o impediu de realizar transações com o sistema financeiro norte-americano.

Apesar da pressão, Moraes manteve postura firme: “É claro que não é agradável passar por isso, mas todo constitucionalista tem grande admiração pelos Estados Unidos… Enquanto for necessário, a investigação vai continuar”, afirmou, destacando que age com responsabilidade e foco no que é justo.

Investigação, processos e defesas

O cerne da controvérsia gira em torno da investigação contra Jair Bolsonaro, que enfrenta processo por suposta tentativa de “golpe de Estado”. Ao saber que o ex-presidente violou a ordem de não usar as redes sociais, Moraes ordenou sua prisão domiciliar, e o julgamento está previsto para as próximas semanas. O ministro defendeu que o STF não age por interesse político, mas sim conforme o devido processo legal: “Faremos o que é certo: receberemos a acusação, analisaremos a evidência, e quem deve ser condenado será condenado, e quem deve ser absolvido será absolvido”.

Ele também apontou a resistência democrática brasileira como uma proteção histórica: “Mais passado por uma doença, formamos anticorpos mais fortes e buscamos uma vacina preventiva”, argumentou, em referência às ditaduras de Getúlio Vargas e ao regime militar que marcaram o país.

Entenda o contexto diplomático e jurídico

A crise diplomática entre Brasil e EUA se agravou rapidamente. Em julho, Trump anunciou medidas punitivas, como tarifas agressivas e sanções individuais, o que levou o STF a reagir com firmeza para preservar a soberania nacional. Mesmo durante o recesso da Corte, Moraes e um grupo de ministros começaram a articular respostas simbólicas e institucionais.

O conflito tem escalado com acusações mútuas sobre interferência, censura e violação de direitos. As sanções baseadas na Lei Magnitsky foram justificadas pelos EUA como proteção dos direitos humanos, enquanto o Brasil viu nisso uma retaliação política e uma tentativa de interferência externa.

Na entrevista, Moraes também foi descrito como um “xerife da democracia” pela imprensa norte-americana, dada sua postura ativa e seu controle sobre investigações sensíveis — algo incomum ao sistema americano, em que juízes apenas julgam, mas não conduzem investigações como no Brasil, onde o STF pode acionar a Polícia Federal.

Ele ainda rebate a acusação de excesso de poder, lembrando que o próprio STF revisou mais de 700 de suas decisões por recurso — e que ele perdeu nenhuma. Quanto à relação diplomática, afirmou admirar os Estados Unidos, mas lamentou a “temporária” distância entre os países provocada por desinformação e polarização, especialmente alimentada por deputados como Eduardo Bolsonaro.

A entrevista de Alexandre de Moraes ao Washington Post marca um momento decisivo na política brasileira. Com firmeza, ele reafirma não apenas sua posição jurídica, mas seu papel simbólico como “guardião da democracia” em tempos de turbulência internacional. Ao enfrentar sanções e críticas externas, Moraes reafirma que a independência do Judiciário é pedra angular da liberdade — mesmo que isso custe o desconforto diplomático.

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