Houve um tempo em que o Brasil parava. As ruas eram pintadas de verde e amarelo semanas antes do primeiro apito, e o destino da nação parecia suspenso por 90 minutos. Crianças, jovens e adultos se reuniam para celebrar o futebol como se fosse uma extensão da própria identidade nacional. Hoje, esse amor parece ter diminuído — e muito.

Segundo o Instituto Datafolha, o desinteresse do brasileiro pela Copa do Mundo atingiu níveis inéditos. A última pesquisa, divulgada em abril, mostrou que 54% da população não tem interesse em acompanhar o torneio, o índice mais baixo desde 1994. Apenas 29% acreditam que o Brasil pode vencer, e 31% afirmam que não pretendem assistir a nenhum jogo. O entusiasmo que outrora unia o país se transformou em indiferença.

Crise Econômica e Novas Prioridades

Para entender esse desinteresse, é preciso olhar para o que realmente ocupa a mente do brasileiro. Pesquisas da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil apontam que as maiores preocupações giram em torno de inflação, endividamento e custo dos alimentos.

Com o poder de compra corroído, o entretenimento esportivo foi empurrado para a periferia das prioridades. A inadimplência atingiu 74,82 milhões de pessoas em abril, e a percepção de aumento nos preços saltou de 74% em setembro de 2024 para 89% em 2025. Quase metade dos brasileiros acredita que o poder de compra vai diminuir, enquanto 68% esperam aumento do endividamento e 65% preveem alta nos juros.

O futebol, que antes era sinônimo de alegria e união, hoje concorre com a urgência de fechar as contas no fim do mês.

O Êxodo dos Jogadores e o Impacto do 7 a 1

O trauma do 7 a 1 contra a Alemanha, em 2014, marcou uma geração. Muitos torcedores se desanimaram com o futebol desde então. A geração atual, que não viu a seleção conquistar uma Copa, cresceu sem o mesmo vínculo emocional com o time.

Além disso, os melhores jogadores brasileiros foram para a Europa. É comum ouvir pais perguntando aos filhos quem são os atletas convocados — muitos nunca jogaram em clubes nacionais. Essa distância entre o torcedor e seus ídolos enfraqueceu o sentimento coletivo. As famílias já não se reúnem para pintar ruas ou assistir juntas aos jogos. O futebol perdeu seu espaço no cotidiano.

Desconfiança Técnica e a Era Ancelotti

Pesquisas recentes da Atlas Intel mostram um forte desgaste na relação entre torcedores e a equipe comandada por Carlo Ancelotti. Quase 40% dos entrevistados definem seu sentimento em relação à seleção como “desconfiança”, 32% como “indiferença” e apenas 23% como “esperança”.

O desempenho fraco explica parte dessa percepção. O Brasil encerrou as eliminatórias com derrota para a Bolívia e ficou em quinto lugar — sua pior colocação na história. Em amistosos preparatórios, acumulou tropeços contra Japão, Tunísia e França.

A última conquista mundial foi em 2002, há 24 anos. A maior parte dos jovens brasileiros nunca viu o país ser campeão e, por isso, muitos transferem suas expectativas para seleções estrangeiras como Argentina, França, Espanha e Portugal.

Politização do Futebol e Divisão Ideológica

Desde o impeachment de 2016, a política passou a dominar o cotidiano nacional. O futebol, inevitavelmente, foi politizado. A camisa da seleção, antes símbolo de união, tornou-se um emblema de divisão.

O uso frequente da camisa amarela e da bandeira nacional por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro fez com que esses símbolos fossem associados ao campo da direita. Parte dos torcedores de esquerda passou a rejeitar o uniforme, enxergando nele um símbolo político adversário.

Essa polarização chegou a tal ponto que surgiu a ideia de criar uma camisa vermelha para a seleção brasileira, proposta que foi abandonada após forte repercussão negativa. O futebol, que deveria unir, acabou refletindo as tensões ideológicas do país.

O Caso Neymar e o Fim da Idolatria

Nem mesmo os grandes nomes escaparam da divisão. O caso de Neymar Júnior é o exemplo mais evidente. Seu apoio público a Bolsonaro gerou rejeição entre parte dos torcedores e jornalistas. Para muitos, esse posicionamento rompeu o romantismo da idolatria.

Críticos afirmam que o jogador colaborou com o aumento do discurso de ódio no país ao apoiar um presidente acusado de promover intolerância e desigualdade. Assim, Neymar deixou de ser unanimidade e passou a representar mais um ponto de ruptura na relação entre futebol e sociedade.

A Camisa Mais Pesada do Mundo

O clima de Copa que parava o Brasil foi construído sobre décadas de vitórias e sobre uma sociedade menos fragmentada. Hoje, nenhum desses pilares está de pé. A narrativa do Brasil como uma “pátria de chuteiras”, cunhada por Nelson Rodrigues, enfrenta o desafio da realidade.

O futebol ainda é parte da cultura brasileira, mas perdeu o poder de mobilizar o país. A camisa da seleção, antes símbolo de orgulho, tornou-se a mais pesada do mundo — carregando o peso das crises, da desconfiança e da divisão.

O Brasil continua sendo o país do futebol, mas já não é o mesmo país das Copas. O amor diminuiu, e talvez o maior desafio da seleção seja reconquistar não apenas títulos, mas também o coração de seu povo.

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